enquanto isso, em Maracangalha…

O vídeo aí em cima é sensacional. Dorival Caymmi e o super-homem cantando, ou quase, Maracangalha. O menininho, a legenda no início informa que é Alexandre, é uma  graça. Bem que os adultos em volta poderiam ter ficado mais quietinhos, mas o registro é bonito mesmo assim.

Recebi a notícia da morte de Caymmi pelo Octávio, meu filho. Dormimos na sala para ver olimpices noite a dentro. Pela manhã acordamos para o futebol e emendamos no volei. Assisti ao primeiro set e caí no sono de novo (coisa boa, sinhô). Foi que deu um tempinho e Octávio me acordou. “Pai, Dorival Caymmi morreu…” O garoto estava sentido. Disse que quando o locutor começou a dar a notícia “morre, no Rio, aos 94 anos” ele pensou “Caymmi”. E era mesmo.

Octávio acabou de ler “O mar e o Tempo”, livro de Stella Caymmi, no qual ela conta, em robustas 627 páginas, a vida do avô. Ele ter lido o livro me deu duas alegrias. Uma, mostrou que o rapaz tem fôlego de leitor. Duas, mostrou que ele sabe apreciar o que é bom. É que o interesse por Caymmi nasceu dele mesmo, ninguém nunca falou “olha filho, como isso é bom”. Temos em casa um CD apenas de Caymmi, daqueles Melhores Tudos de Todos os Tempos, com umas vinte e tantas músicas. E é só. E ele nunca foi, nem de longe, o mais tocado da radiola doméstica. Aí eu penso assim… um cara de outro mundo (no caso a primeira metade do século 20) cair no gosto de um rapaz de 14 anos… é que a coisa é boa e não vai morrer nunca mesmo.

Pergunto ao Octávio qual a música de Caymmi que ele mais gosta. Ele titubeia. Não quer falar uma, assim. Só uma. Insisto. Ele diz… ah, Maracangalha. Pergunto mais: o que significa Maracangalha? Ele me explica que é um lugarzim, bem pequeninim perto de Salvador… era tão pequeno e tão esquecido que o pessoal dizia que foi lá que “amarraram a cangalha”… daí o nome. Caymmi, segue Octávio a contar, tinha um amigo chamado Zezinho, que dava umas puladas de cerca de vez em quando e, como desculpa, dizia à patroa: “Eu vou pra Maracangalha”.  O compositor estava em São Paulo (onde morou por 8 meses), pintando (coisa que ele adorava) quando lembrou da frase e compôs a música. Simples como um vatapá.

Deu pra ver que Octávio leu o livro com atenção :)

Alías, o livro, da Editora 34, é bonito e completo. Tem muitas fotos, a capa de todos os discos (que nem são tantos) e a relação completa das 120 músicas que Caymmi compôs em seus 94 anos de vida. Passando o olho pela lista a gente reconhece muitas. Ouro puro.

Vai pro Olímpo ou não vai?

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