isso não é sonho

Dia 23 à noite, todo mundo sabe, caiu um pé d’água daqueles no Rio. Com direito a grande show de raios. Contrariando todos os manuais de sobrevivência na selva carioca saí de casa mesmo assim. Destino: os cinemas arteplex de Botafogo. Chego sem sustos, mas me espanto com a fila. Encaro. Nada de ingresso para os filmes que estavam na minha lista. Sem problema. Vou fazer hora na livraria e depois vejo o que faço.  Com os fones no ouvido (Noturno Copacabana, Guinga, um grude) folheava tranquilamente um desses bonitos livros de quadrinhos (não lembro mais qual) quando percebi uma movimentação estranha por perto. Já teve a sensação de estar numa cena de filme completamente, mas completamente improvável? Uma cena assim, de Charlie Kaufman,   só pra ficar num exemplo em cartaz. Pois foi isso que eu senti ao olhar para o lado e ver que uma cachoeira, e isso não é exagero algum, caía das luminárias da livraria. Não é figurinha de linguagem, nada de cachoeira de luz, era água mesmo. E muita. A primeira reação foi tentar ajudar, ainda que timidamente, os funcionários que corriam como loucos para salvar os livros (se não me engano dia 23, além de ser dia de São Jorge é também dia do livro, não?). Salvei um livro grande de capa amarela. Logo depois me afastei para não aumentar a confusão. Hesitei em tirar o celular do bolso e filmar aquela cena sem adjetivos.  Mas tirei. Tirei e filmei. E ninguém pareceu se importar com isso. Não percebi nenhum olhar dizendo “filho da puta oportunista, registrando a tragédia alheia”. É um risco que se corre. Fiz dois filmetes, um de 18 e outro de 37 segundos. O suficiente para provar, a mim mesmo, depois, que aquilo não havia sido um sonho da noite anterior. Aos poucos o fluxo da água que caía das luminárias  diminuiu e os clientes e curiosos foram saindo. Fiquei quase  por último e antes de sair me dirigi à funcionária que parecia ser a gerente. Expliquei que tinha gravado parte do sinistro e, caso eles tivessem interesse, poderia ceder o vídeo como prova ou coisa que o valha em alguma ação contra os responsáveis. Ela agradeceu, pegou meu telefone e disse que poderia ser útil sim. Explicou também que, pasmem!, não foi a primeira vez que aquilo aconteceu. E mais, pasmem ao cubo!, o motivo é que os administradores do prédio acima não limpam como deveriam limpar as calhas encarregadas de escoar a água da chuva. Tem outra coisa além de puta-que-os-pariu! pra dizer numa situação dessas? A causa da inundação consegue ser ainda mais inacreditável   que a inundação em si. Falta de respeito em estado puro. 

Nota inicial: só ao sair eu notei que, no fundo da livraria do Arteplex, braços cruzados, Zuenir Ventura conversava com alguém. Parecia triste.

Nota quase final: acabei deixando o arteplex e caminhando debaixo d’água até o Estação onde assisti Palavra Encantada (belo filme, aliás). No caminho havia muitas poças, uma luminária de poste no chão que, por sorte, aparentemente não acertou ninguém ao cair, além de galhos, folhas e ruas escuras.  Voltei pra casa salvo, já são não sei.

Nota final: Hoje, dia 24, passei por lá. Dei uma olhadela de longe. A livraria estava funcionando e a aparência era de normalidade. Até a próxima chuva, pelo menos.

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